Homenagem a Florivaldo Vargas
Dizem
que coincidências não existem, mas como se explica
que alguém nascido no longínquo estado da Bahia, depois
de ter morado em São Paulo tenha vindo fixar suas raízes
em nossa cidade?
Há exatos
50 anos o Sr. Florivaldo Vargas teve a coragem de escolher nossa
cidade para morar, digo coragem porque há este tempo o então
estado de Mato Grosso era nacionalmente quase desconhecido, quando
ainda se pensava que aqui se encontrava onças pelas ruas
e que havia índios canibais, ele decidiu semear sonhos e
esperanças em nossa cidade.
Sonhos para
os cegos que aqui viviam e que não tinham nenhuma perspectiva
de estudar ou de se realizarem como cidadãos. Viviam à
margem da sociedade, segregados em seus lares e Florivaldo teve
a ousadia de sonhar que Campo Grande e o Mato Grosso mereciam uma
escola para cegos.
Não foi
uma luta fácil, pois ele era um jovem recém-chegado
à cidade e o que tinha para oferecer às pessoas era
apenas o seu sonho. Mas felizmente houveram os que acreditaram nele
e a 4 de fevereiro de 1957 era fundado o Instituto Matogrossense
para Cegos.
Eram os primeiros
frutos da sua semeadura; alguns cegos de nossa cidade passaram a
contar com um abrigo, muitos com a alimentação que
lhes faltava e com carinho, porque para ele todas essas pessoas
passaram a fazer parte de sua família.
Todavia Florivaldo
Vargas não se acomodava, e não satisfeito por ainda
não dispor de uma escola enviou os primeiros alunos para
o Rio de Janeiro para que pudessem aprender o Sistema Braille. Mas
era caro e restringia muito as oportunidades, então ele mandou
a jovem Professora Nazareth Pereira Mendes fazer um curso de especialização
em São Paulo para que os alunos pudessem ser atendidos aqui
mesmo.
Mais uma vez
ele acertou na escolha, em breve o seu investimento começou
a produzir frutos e em pouco tempo tivemos os primeiros alunos inseridos
no ensino regular, pois quando a maioria das escolas especializadas
do Brasil tinha o seu ensino até a conclusão do Ginásio
em seu interior, Florivaldo Vargas ousou mais uma vez colocá-los
junto com os alunos videntes e podemos dizer que estes foram os
primeiros passos da inclusão em nosso estado.
Florivaldo estudou
pouco, porém a sua visão de mundo era muita a frente
do seu tempo. Possuía hábitos simples, contudo não
se amedrontava com os desafios, aliás, parecia que este era
o combustível de sua luta, quanto mais difícil era
a batalha maior era o seu desejo de vencê-la.
O Instituto
Matogrossense para Cegos recebia alunos de todo o estado de Mato
Grosso, mesmo das regiões mais distantes, pois era a única
escola especializada em toda a região. As suas portas estavam
abertas a todos que o procurava, mesmo de outros estados e até
mesmo dos países vizinhos. Daqui saíram alunos que
fundaram instituições em outras cidades como Rondonópolis
e Cuiabá e mesmo o atendimento aos cegos de Rolim de Moura
em Rondônia foi criado por um aluno de Cuiabá que se
pode dizer que já é a extensão em segunda geração
do trabalho de Florivaldo Vargas.
O Instituto
Sul Matogrossense para cegos "Florivaldo Vargas" - ISMAC,
que passou a ter este nome após a divisão do Estado
e a morte de seu fundador, se tornou referência para a região
centro-oeste no atendimento aos deficientes visuais.
Todos que tiveram
o privilégio de conhecê-lo ou de saber da sua história
e conhecer a sua obra acabaram por sonhar o seu sonho. O maior exemplo
disto são todos que hoje aqui estão, diretores, ex-diretores,
professores, que trabalham ou já trabalharam na instituição,
alunos, ex-alunos, funcionários. Pois trinta anos após
a sua morte, nós estamos comemorando o cinqüentenário
desta casa é porque continuamos a acreditar no sonho deste
pioneiro.
Iniciamos falando
de coincidências, mas fazendo esta retrospectiva podemos acreditar
que elas realmente não existem, pois quando Florivaldo escolheu
a nossa cidade o seu critério foi o de fazer justiça,
pois a primeira vez que veio a Mato Grosso foi representando uma
entidade de cegos de Lins, São Paulo, para receber contribuições
para aquela entidade, e então se deu conta que o mais justo
seria que a sociedade matogrossense ajudasse aos cegos que aqui
viviam sem nenhuma condição.
Podemos então
dizer que Deus nos privilegiou com a graça de termos em nosso
convívio alguém tão iluminado como Florivaldo.
Alguém um dia disse que uma decisão inteligente é
aquela que tomamos pela razão, mas que uma decisão
sábia é aquela que tomamos com a razão e com
a inspiração divina, e temos a certeza que a sua foi
uma decisão sábia.
Neste momento
as nossas palavras não poderiam ser outras senão de
agradecimento, obrigada a Florivaldo que dedicou sua vida por este
sonho. Aos seus familiares que muitas vezes prescindiram de sua
presença para que ele pudesse estar presente a esta casa
e que tantas outras se somaram a ele para que tivéssemos
hoje esta obra espetacular chamada ISMAC, obrigada a todos que continuam
a sonhar este sonho de oferecer condições para que
os deficientes visuais que freqüentam esta casa possam ter
as oportunidades que todos merecem, e em fim obrigada a Deus por
ter posto este ser iluminado a serviço desta causa e desta
casa.
Texto
de Astrogilda Maria José
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