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A história cinquentenária
do Instituto Sul Matogrossense para Cegos Florivaldo Vargas - ISMAC.
A educação
das pessoas com deficiência visual tem como marco temporal
o ano de 1957, e geográfico a cidade de Campo Grande, atual
capital do Estado de Mato Grosso do Sul.
Na década de 1950,
O Sr. Florivaldo Vargas, trabalhava como cobrador das mensalidades
ofertadas à Associação Linense de Cegos, sediada
em Lins, Estado de São Paulo, incumbindo-lhe a região
de Campo Grande, na época, próspero município
integrante do Estado de Mato Grosso.
Dessa forma, tomou conhecimento
que os cegos matogrossenses entregavam-se à mendicância,
única forma de conseguirem sobreviver ou eram enclausurados
por seus familiares, que tentavam escondê-los da sociedade.
Impulsionado pela solidariedade
humana e no desiderato de proporcionar-lhes uma vida condigna, tentou
conseguir vagas naquela Instituição paulista, para
que pudesse ser assistidos, aprender uma profissão e alfabetizarem-se
pelo Sistema Braille. Não logrando êxito no seu objetivo
decidiu no ano de 1956, transferir-se com sua família e alguns
amigos deficientes visuais como ele, para Campo Grande, acalentando
o sonho de fundar nessa cidade uma instituição para
o atendimento das pessoas cegas desse Estado.
Assim, aos 28 de janeiro
de 1957, reuniram-se na sede da Associação Comercial
de Campo Grande, localizada na Rua 15 de Novembro, 390, um grupo
de voluntários convidados pelo Sr. Florivaldo Vargas para
tratar da organização de uma sociedade de assistência
aos cegos de Mato Grosso. Dessa reunião foi extraída
uma comissão encarregada da divulgação e propagação
da idéia e agendado o próximo encontro.
Dessa forma, em 4 de
fevereiro de 1957, com o lema "Assistência, Trabalho
e Educação", foi fundado o Instituto Matogrossense
Para Cegos (IMC), cuja diretoria provisória ficou constituída
pelos seguintes membros: Presidente: Major José Saab; Secretária:
Gilca Simões Correa; e Tesoureiro: Cristino Barbosa.
Em 20 de fevereiro do
mesmo ano, aprovaram-se os estatutos da referida Instituição
e elegeu-se e empossou-se a sua primeira Diretoria: Presidente:
Humberto Rossi; Primeira Vice-presidente: Gilca Rocha Simões
Correa; Segunda Vice-Presidente: Maria Edwiges Borges; Primeiro
Secretário: Maria Garcia Pereira; Segundo Secretário:
Avelino dos Reis; Primeiro Tesoureiro: José Nasser; Segundo
Tesoureiro: Padre Constantino de Monte; Diretora Social: Oliva Inciso;
Junta Técnica: Florivaldo Vargas; Manoel Lino dos Santos;
Conselho Fiscal: Major Saab; Dr. Antônio Marques; José
Barbosa Rodrigues.
A Instituição
instalou-se primeiramente numa sede provisória localizada
na Rua 7 de Setembro 456/458, onde residiam pessoas cegas já
adultas e seus familiares.
Por conseguinte, dentre
os seus objetivos institucionais, o trabalho destas pessoas passou
a constituir-se no primordial e imediato desiderato da Instituição.
Assim, para o desenvolvimento das atividades laborais foi criado
um quadro de vendedores/cobradores cegos, cuja atribuição
era vender as mercadorias compradas pelo Instituto, bem como divulgar
a Entidade e promover a inscrição de sócios
e efetuar a cobrança das mensalidades para a Entidade, recebendo
para tanto uma remuneração correspondente a 30% (trinta
por cento) do valor arrecadado. Para a facilitação
desse trabalho firmou-se parceria com a Empresa Ferroviária
Noroeste do Brasil, no sentido da disponibilização
de passes livres para que as pessoas cegas e seus guias desenvolvessem
o trabalho em todo o estado. Tal parceria foi decisiva para a disseminação
de informações sobre a Instituição.
Em 15 de junho de 1958,
como a procura por vagas no internato era crescente, iniciou-se
a alfabetização dos alunos cegos pelo Sistema Braille,
sendo contratado para este magistério o professor José
Eurípedes da Silva (com deficiência visual), ofício
que desempenhou até abril de 1960.
Em janeiro de 1962, o IMC firmou convênio com a Campanha Nacional
de Educação de Cegos, encaminhando para o curso de
capacitação no Instituto de Educação
Caetano de Campos, São Paulo, SP, a recém formada
professora Nazareth Pereira Mendes.
No mês de março
de 1963 com a conclusão do curso e o retorno da citada professora
a Campo grande, iniciaram-se as ações para a inserção
dos alunos com deficiência visual no ensino regular.
Nesse sentido, a abnegada
professora de posse de um ofício da Secretaria de Educação
do Estado, empreendeu visitação às escolas
públicas, na árdua tarefa de convencer os professores,
das potencialidades e das possibilidades desses educandos para a
aprendizagem no mesmo ambiente escolar, freqüentado pelos demais
alunos.
Corajosamente a professora
Nazareth Pereira Mendes enfrentou o descrédito, a desconfiança
e a negativa do corpo docente de muitas escolas públicas,
todavia empunhando a bandeira da Integração das pessoas
com deficiência visual no ensino regular, prosseguiu no seu
objetivo, culminando com a aceitação deste segmento
nas escolas públicas dessa cidade, após sua prévia
alfabetização pelo Sistema Braille.
Dessa forma, em 27 de
abril de 1963, como parte das comemorações da "Semana
da Educação", foi instalada oficialmente no IMC,
a sala Braille "Dorina de Golveia Nowill", inicialmente
com onze alunos deficientes visuais (crianças, adolescentes
e adultos), os quais, nesta solenidade, entoaram canções
e outras apresentações artísticas, comovendo
os presentes.
Em decorrência
disso, em 1964, foi inserido o primeiro aluno cego no sistema comum
de ensino, Wilson Fernandes da Silva, no Colégio Joaquim
Murtinho, e no ano seguinte no mesmo educandário ingressou
Sebastião de Souza e posteriormente, Dercy Hauck , na Escola
General Mallan.
Paulatinamente foram
chegando à Instituição crianças, adolescentes
e adultos advindos do interior e da capital do estado e por vezes
até de outros estados e países vizinhos, aumentando
consideravelmente os alunos com deficiência visuais internos
e também os inseridos no ensino regular, estes e outros que
ali não residiam, recebiam o atendimento especializado da
professora Nazareth, abnegada e incansável na alfabetização
pelo Sistema Braille, nas transcrições dos textos
e das provas, na orientação e mobilidade, nas atividades
da vida diária, na execução da educação
física de forma lúdica, no serviço itinerante,
enfim não poupava esforços para que seus alunos se
desenvolvessem integralmente.
Além disso, eram
eles estimulados por toda a Diretoria, especialmente pelo Sr. Florivaldo
Vargas, a dedicar-se aos estudos e a obter um bom desempenho escolar,
recebendo premiação aqueles alunos que obtivessem
melhores notas na escola comum. Para essa comemoração
anual, preparava-se uma solenidade incluída na programação
das festividades comemorativas à "Semana dos Cegos"
instituída pela lei Municipal n° 51. 045, de 26 de julho
de 1961, realizadas no mês de dezembro de cada ano, tendo
como ápice o dia 13 de dezembro "Dia Nacional dos Cegos".
Nessas programações
estavam incluídos ainda, seminários, palestras, apresentações
artísticas e culturais, torneios, jogos de mesa, gincanas,
esses últimos com a participação de outros
grêmios estudantis dos diversos estabelecimentos escolares
da cidade, sob a coordenação do Grêmio estudantil
"Kalil Rahe", criado pelos alunos com deficiência
visual, em1969.
Saliente-se que nestes
eventos a presença das autoridades e da comunidade era constante,
favorecendo a integração social e a difusão
do trabalho desenvolvido pela Instituição, em todo
o estado e no país.
Esse reconhecimento redundou
na Lei Municipal n° 901, de 07 de dezembro de 1964, relativa
à doação pela Prefeitura Municipal de Campo
Grande, de um terreno, localizado na Rua 25 de dezembro, 262, para
a construção de sua sede própria.
Com o passar do tempo, o prestígio da Instituição
foi se firmando no cenário educacional, mato-grossense, tanto
assim que em 1969, ingressaram três alunos com deficiência
visual no curso ginasial do Colégio Estadual Maria Constância
de Barros Machado, aumentando sensivelmente os encargos da professora
Nazareth, razão pela qual foi contratada para auxiliá-la,
Magali Ribeiro Castilhon.
Em face do exitoso aproveitamento
escolar dos alunos do IMC, o Sr. Florivaldo Vargas atento às
suas necessidades e ao crescimento cultural do segmento, propôs
a criação de uma biblioteca com livros impressos na
grafia Braille, cuja implementação ocorreu em 1971.
Sob a denominação de "Nazareth Pereira Mendes",
em homenagem à mestra pioneira do centro-oeste, na alfabetização
e integração educacional das pessoas destituídas
da visão. Também nesse ano o Decreto-lei Municipal
n° 1328 de 06 de dezembro de 1971, instituiu o "Mês
Social do Cego", cuja comemoração ainda hoje
é preservada.
Gradativamente ampliaram-se
os serviços prestados pelo IMC aos educandos com deficiência
visual, sempre com a finalidade do seu desenvolvimento integral.
Nessa linha, em agosto de1974, foi designado o primeiro professor
de Educação Física Silvio Lobo Filho, encarregado
inclusive de treinar a equipe que participaria da Primeira Olimpíada
Nacional de Deficientes Visuais (ONADV) que se realizou no período
de 10 a 13 de outubro daquele ano. Para viabilizar essa participação,
uniram-se a diretoria, professores, alunos, o Poder Público
e a comunidade. Dessa forma, partiu a delegação composta
pelos seguintes membros: Chefe: Florivaldo Vargas; Responsável
área esportiva: Sílvio Lobo Filho; Responsável
área Cultural: Nazareth Pereira Mendes; Responsável
área artística: Doralice Vargas; Tesoureira: Professora
Edir Vasconcelos Lobo; Imprensa: Pio Lopes e Camerino Vargas Neto;
Equipe: 23 atletas deficientes visuais.
Essa exitosa delegação
retornou a Campo Grande com a conquista de quatro troféus,
doze medalhas de ouro, quinze de prata e dezessete de bronze, resultado
da obtenção do segundo lugar naquele certame.
Em dezembro de 1974, o dedicado aluno do IMC, Amilton Garai da Silva
concluiu o Magistério na Escola Normal Joaquim Murtinho e
no ano seguinte aprovado no vestibular para a Faculdade de Direito,
ingressou nas Faculdades Unidas Católicas de Mato Grosso
(FUCMAT), sendo a primeira pessoa com deficiência visual do
estado a cursar o nível superior. Seguiu-o Sebastião
de Souza aprovado em 1975, para o Curso de Pedagogia, e posteriormente
Benedito Sinézio de Arruda para o Curso de Letras da mesma
Faculdade.
Nesta trajetória
dinâmica, ampliou-se o corpo docente, contratando-se os serviços
do professor Amilton Garai da Silva para a alfabetização
dos alunos pelo Sistema Braille, atribuindo-se à professora
Nazareth, o atendimento daqueles que freqüentavam o ginásio
e o segundo grau.
Nessa linha, em julho
de 1975, implantou-se o Setor de Locomoção, assumindo
como titular Florivaldo Vargas Filho, técnico habilitado
pelo Instituto Santa Luzia, sediado em Porto Alegre, Rio Grande
do Sul.
Em 13 de dezembro de 1975, inaugurou-se a primeira etapa da atual
sede do Instituto, coroando o trabalho de mais de uma década
em prol de sua construção.
Consequentemente, em
janeiro de 1976, transferiram-se para o novo prédio os setores:
administrativo, educacional, serviço social, auditório,
biblioteca, sala de canto, cozinha, refeitório, dormitório
feminino, permanecendo ainda, na antiga sede o dormitório
masculino.
Em julho de 1976, foi
contratado pela Secretaria de Educação e Cultura do
Estado, o professor Carlos Ney Silva, para assumir o Setor de Orientação
e Mobilidade, função que desempenhou eficientemente
por mais de quinze anos, imprimindo agilidade e confiabilidade na
locomoção das pessoas cegas.
Decorridos quase vinte
e dois anos da fundação do IMC, em 1° de fevereiro
de 1978, faleceu Florivaldo Vargas, sucedendo-o, na direção
técnica o Sr. Florivaldo Vargas Filho e como vice-diretor:
Benedito Sinésio de Arruda.
No período de fevereiro de 1979-1991, assumiu a Direção
Técnica o bacharelando de direito e professor Amilton Garai
da Silva que juntamente com a estruturação do corpo
docente, coordenado pela professora Nazareth, conduziram com brilhantismo
os destinos do IMC, transformando-o em instituição
modelo em todo o país. Ampliaram-se os atendimentos especializados,
como estimulação precoce, aulas de música,
trabalhos manuais, oferecendo-se ainda, cursos de capacitação
para professores do ensino comum.
Nesse interregno encaminhou-se
à assessoria técnica da Secretaria de Educação
do Estado, proposta de transformação da Entidade em
escola regular de primeiro grau, não sendo, todavia aprovada,
visto que a Secretaria de Estado de Educação, entendia
que a implantação do serviço na instituição
não era viável, pois faltava-lhe estrutura administrativa
e organizacional.
Também, em janeiro
de 1981, devido à divisão do Estado de Mato grosso
(1977) e instalação do estado de Mato Grosso do Sul
(1979), alterou-se a denominação social da Entidade
para "Instituto Sul Matogrossense para Cegos Florivaldo Vargas"
(ISMAC), nome que ainda conserva, em homenagem ao seu idealizador,
fundador e diretor.
Pouco a pouco, os educandos
com deficiência visual foram galgando os degraus da Universidade
e freqüentando os cursos de especialização, e
consequentemente tendo acesso ao mercado de trabalho, pela aprovação
em concursos públicos federais, estaduais e municipais.
Por outro lado, para
aqueles que demonstraram aptidão para determinado ofício,
buscou-se capacitá-los em cursos profissionalizantes para
o desenvolvimento de atividades no setor privado e público,
como massoterapeutas, câmeras-escuras, tele-marketing, telefonistas
etc.
Atualmente o ISMAC, oferece
atendimento especializado para deficientes visuais inseridos nos
Centros de Educação Infantil, escolas municipais,
estaduais e particulares (ensino fundamental, médio e EJA)
e para acadêmicos das diversas Universidades, abrangendo os
seguintes serviços:
Serviço Social, Psicologia, Intervenção Precoce,
Brinquedoteca, Habilitação/Reabilitação
em Braille, Escrita Cursiva, Atividades da Vida Diária (AVD),
Orientação e Mobilidade (OM), Educação
Física, Informática, Ensino do Sorobã, Acompanhamento
Escolar, Mercado de Trabalho, Núcleo Gráfico Braille,
Biblioteca, Audioteca, Artesanato e Música. Além dos
atendimentos citados, contamos também com o Centro Interdisciplinar
de Atendimento à Pessoa com Baixa Visão de Mato Grosso
do Sul - CIA-BV/MS, responsável pela realização
de Avaliação Funcional da Visão (AFV) e adaptação
de recursos ópticos.
Projeto “Novo
Olhar” – Ponto de Cultura :
Originado no processo
nº 09/600.407/2009, é a criação do Ponto
de Cultura – Programa Mais Cultura com a execução
do Projeto “Ponto de Cultura Novo Olhar” que visa atender
crianças, adolescentes e adultos com deficiência visual
(cegos e baixa visão) e pessoas da comunidade para o exercício
da Arte, por meio de cursos nas áreas de dança, música,
capoeira e coral.
É um convênio
firmado entre a Fundação de Cultura de Mato Grosso
do Sul- FCMS e o Ministério da Cultura.
Texto
de Tânia Regina Noronha Cunha.
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